Comunicação Violenta - Porque a gente gosta é de pancadaria

Bora entender o que tem dificultado você se comunicar na vida?

Você já se pegou discutindo no trabalho? Explicando a mesma coisa, duas, três, dez vezes para uma mesma pessoa sem que ela desse o menor sinal de estar endendedo?

Ou melhor ainda, você já teve que ouvir a mesma cobrança sem sentido sobre algum problema que claramente não era sua responsabilidade?

Se você passou por isso, ou até situações diferentes, onde o componente central é a falta de entendimento entre duas partes, você já conheceu na prática a comunicação violenta.

À primeira vista ela pode enganar porque nem sempre é acompanhada de atos violentos. Você pode presenciar alguém bem calmo se comunicando de maneira violenta. Você pode num bate papo de almoço com seu colega passar por isso sem se dar conta. Você fala, ele fala, ninguém se entende.

Vamos tentar entender os componentes da comunicação violenta:

Julgamento de valor ou avaliação

“O Fulano não tem comprometimento

Toda vez Beltrano se atrasa”

“Nossa, que bobagem que Ciclano tá falando”

O primeiro passo numa conversa que faz uso da comunicação violenta é o julgamento. Em alguns casos você recebe os fatos e cria um julgamento baseado no seus valores, no que você acha certo e errado e usa essa ideia, criada pela sua mente, como base para a verdade.

Em outros casos, o julgamento já chega pronto até você, que prontamente se sente ofendido: “É lógico que eu tenho comprometimento”. E aí você cria outro julgamento para continuar a sua conversa: “Você não tem moral nenhuma pra me dizer isso”.

Perceba que nem sempre essa conversa é dita em voz alta, às vezes, essas respostas só ocorrem dentro da sua cabeça mas isso é suficiente para gerar ruído na comunicação.

Quando isso acontece, a primeira etapa da comunicação violenta se instalou.

Você deve estar se perguntando, como eu faço pra evitar essa armadilha? Fatos.

“Contra fatos não há argumentos”

“O Fulano não cumpriu o prazo de entrega nas últimas duas vezes

“O Beltrano se atrasou quatro vezes essa semana”

“Nossa, o que Ciclano está falando está em desacordo com a primeira lei de newton

Quando você quer evitar a armadilha do julgamento, precisa expressar em fatos. O que aconteceu? Qual foi o comportamento que ocasionou aquela situação?

Perceba que não é simples evitar um julgamento, nós humanos temos uma predisposição gigantesca para isso. A sociedade faz isso o tempo todo e como indivíduos, acabamos adquirindo essa prática e esse gosto.

Quando você receber um julgamento de valor numa conversa, você pode fazer perguntas para tentar chegar ao cerne da questão: qual o fato que te levou aquele julgamento?

“O que eu fiz para você pensar isso de mim?”

Algumas questões podem te ajudar a encontrar o fato e depois disso fica mais fácil se comunicar.

Expressar opiniões

“Eu sinto que você não deveria fazer isso”

Sinto como se estivesse falando com uma parede”

Sinto que essa proposta não é justa”

A segunda etapa se mistura um pouco com os juízos de valor, mas ela tem mais a ver com a gente do que com o outro, então se trata de você expressando a sua opinião.

Não me entenda mal, opiniões são coisas importantes, mas quando estamos falando de comunicação violenta, elas vão fazer mais estrago do que ajudar.

Mas por que isso?

Quando você expressa sua opinião, ela carrega os seus valores. O problema nisso é que os valores das pessoas são diferentes, é como se você enviasse uma mensagem com senha, mas sem compartilhar a chave. E na comunicação violenta, essa mensagem sem senha é uma garantia de problemas.

Você está curioso pra saber como evitar essa armadilha? Existe um caminho, mas eu já adianto que ele é complicado para muitas pessoas: Sentimentos

Ok, eu vou te dar um minuto pra se recuperar.

Eu sei, falar de sentimentos é sempre complicado.

Primeiro porque nosso vocabulário sentimental é limitado.

Depois, vulnerabilidade (que é a porta para se falar de sentimentos) é algo não tão bem visto na sociedade atual (nossa amada sociedade S2).

Mas fica tranquilo, estamos só você e eu aqui, nessa sociedade você pode ser vulnerável. E a gente pode trabalhar nosso vocabulário emocional. Vai dar tudo certo.

Como eu dizia, a chave para evitar a armadilha da opnião é expressar os seus sentimentos.

“Quando eu vejo você fazendo isso, eu fico triste e angustiado

“Quando eu falo com você eu me sinto solitário e inseguro

“Lendo essa proposta me sinto ansioso e temeroso

Vulnerabilidade gera conexão. Seus sentimentos não podem ser contestados, eles são seus! E na comunicação, isso permite que você mostre para o outro que o fato gerou um impacto em você.

A mensagem que você envia é clara, porque você se abre e permite que o outro te entenda, através do que você está sentindo.

E você também pode receber opiniões ao invés de sentimentos, o que é complicado. Quando isso acontece, podemos fazer uso de perguntas para inferir o que a pessoa sente e tentar confirmar com ela:

“Você ficou triste com o fato de eu não ter ido?”

“Você está ansioso para a apresentação da tarde?”

Questionar vai ajudar a deixar claro qual é o sentimento que a mensagem precisa passar.

Atribuir culpa

“Você me desapontou por não ir na festa”

“Fiquei realmente irritado por não ter sido chamado”

“Estou angustiado por não saber resolver isso”

Estamos evoluindo na nossa conversa e agora chegamos numa coisa que adoramos fazer: Colocar a culpa em alguém.

Às vezes botamos a culpa em nós mesmos, às vezes colocamos a culpa no outro, mas são poucas as situações em que deixamos de culpar alguém.

O problema disso é que culpa é um negócio que pesa igual uma mochila de pedras.

É pesada e sem serventia. (Imaginando que seu emprego não seja vender ou carregar pedras).

Quando a gente aceita a culpa, destruímos a nossa auto-estima. Quando a gente devolve a culpa, é provável que isso se torne raiva (na manifestação mais eficiente da comunicação violenta) e muitas vezes isso vai criar uma situação desagradável.

Um grande problema na atribuição de culpa durante a comunicação é que ela corrompe o significado da nossa mensagem.

“Eu fiquei chateado por você não ter ido.”

A escravidão emocional vai te fazer escutar essa frase e se sentir culpado.

Mas como eu posso ser culpado pelo sentimento do outro? Se isso passou pela sua mente, você se livra da escravidão emocional e começa a não querer ser responsável pelas emoções do outro.

Quer dizer que eu não tenho responsabilidade alguma? Agora você começa a entender que tem sim responsabilidade, mas sobre suas ações e intenções, nunca sobre o sentimento do outro.

Isso te ajuda a entender que você não pode se machucar apenas para satisfazer o outro.

A palavra chave para evitar essa armadilha é: Necessidade.

“Fiquei desapontado quando você não foi a festa pois gostaria de conversar contigo sobre algo”

“Fiquei realmente irritado por não ter sido chamado já que estava contando com esse dinheiro”

“Estou angustiado por não saber resolver isso pois preciso entregar isso amanhã”

Quando você reconhece suas necessidades(ou a do outro) e consegue conectar isso com os sentimentos envolvidos fica mais fácil se conectar.

E uma boa conexão é fundamental para uma boa comunicação.

O reconhecimento das necessidades é um desafio à parte assim como os sentimentos, pois é algo que a nossa sociedade usa em muitos casos para nos agredir.

É comum sermos julgados ao revelar nossas necessidades e isso é assustador. Ainda mais para as mulheres que foram ensinadas a vida toda para ignorar as próprias necessidades para cuidar de uma família (acontece menos hoje, mas ainda é muito presente na nossa sociedade patriarcal).

Mas eu posso te garantir que esse é um passo necessário se você quer remover a comunicação violenta dos seus diálogos.

Pedidos inefetivos

“O que eu quero é que você demonstre mais responsabilidade

”Eu preciso que você gaste menos tempo coletando dados

Quero que vocês se sintam livres para se expressar na minha presença”

O último componente da comunicação violenta é a inefetividade dos pedidos.

Nós conseguimos chegar a conclusão de que através de fatos, sentimentos e necessidades, conseguimos remover uma grande carga de ruído da nossa comunicação. Mas o que acontece depois disso?

Nós preparamos o terreno até aqui e na reta final, tudo pode acabar dando errado se a gente expressar errado o nosso pedido. É muito comum a gente focar em pedidos negativos, coisas que não são exatamente o que nós queremos.

E quando isso acontece, o outro pode até atender seu pedido, mas gera frustração porque aquilo que ele fez não é o que você queria, mas foi o que você pediu.

É comum não termos consciência do que estamos pedindo, e isso gera um ruído que pode se tornar facilmente uma comunicação violenta.

Você pode estar pensando: Mas e se eu não estiver pedindo nada?

Quando estamos nos comunicando, sempre estamos pedindo algo. Pode ser apenas uma conexão - aquele amigo que apenas escuta e acena com a cabeça - Ou talvez uma opnião de como lidar com determinado assunto. Independente do tipo do pedido, quanto mais claro ele for, maior é a chance dele ser compreendido e evitarmos a frustração.

Nós podemos evitar essa armadilha da comunicação violenta expressando nossos pedidos de maneira clara e positiva.

“Nós moramos em um bairro perigoso e quando você chega tarde eu fico preocupada com sua segurança, você poderia chegar antes das 19h?”

”Nas últimas vezes nós gastamos metade do prazo coletando dados, e eu fiquei estressado tentando acelerar a entrega. Nesse projeto, poderíamos gastar apenas um terço do nosso tempo coletando dados?”

“Eu recebi muitas sugestões valiosas no nosso formulário anônimo, mas me preocupa que as pessoas não me falem isso diretamente, pois eu quero que todos se sintam seguros na nossa empresa. O que eu posso fazer para que vocês sintam segurança em compartilhar abertamente?”

Uma parte importante de expressar nossos pedidos e percorrer todo o caminho até eles, é usar fatos, sentimentos e necessidades, pois sem isso a nossa comunicação fica com buracos e, inevitavelmente, vai cair de novo na comunicação violenta.

Também é importante entender que pedidos são diferentes de exigências.

Quando você faz um pedido, tem de entender que o outro pode simplesmente dizer não.

Isso mesmo, você pode ouvir uma resposta negativa sobre o seu pedido.

A comunicação violenta se alimenta de exigências, em obrigar o outro a ser dobrar perante a sua vontade. Você ia gostar de estar nessa situação?

Quando for expressar seu pedido, será necessário deixar isso mais claro. A vida oferece exigências a muitas pessoas e pode ser complicado reconhecer um pedido quando só recebemos exigências o tempo todo.

Conclusão

Eu não acredito em óbvio, então vou começar deixando claro: A comunicação violenta não vai te ajudar a se comunicar de maneira efetiva. Esse texto é uma reflexão do livro de Marshall Rosenberg, sobre comunicação não-violenta.

Mas por que eu decidi falar sobre comunicação violenta?

Simples, ela está presente em muitos aspectos da sua vida e não é um alvo a ser alcançado. É fácil se identificar com o que nós já praticamos.

Os 4 componentes que discutimos:

  • Os fatos vão te ajudar a evitar julgar.
  • Os sentimentos vão te ajudar a se conectar.
  • A necessidade é o que desencadeou a comunicação.
  • Os pedidos claros irão alinhar o resultado do diálogo.

Eu recomendo a leitura do livro do Rosenberg, mas sempre que possível vou tentar trazer algumas releituras e insights aqui.

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